SP da literatura

CRÔNICA URBANA: Verossimilhança

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De segunda a sexta, às 8 horas manhã, eu pegava o ônibus Pinheiros na avenida Ipiranga em direção ao trabalho. Pontual, não me recordo de atrasos. Deve ser por isso que reconhecia grande parte das pessoas no ponto. Cada qual carregava malas e mochilas em suas costas além do cansaço dos dias trabalhados e das noites mal dormidas em seus rostos. A gente se cumprimentava com um aceno de cabeça. Quando alguém novo aparecia e começava a forçar a vista para ler o letreiro (ou mesmo dar sinal e fazer perguntas ao motorista), geralmente alguém perguntava o destino e informava o ônibus certo. Era cordial e ajudava a quebrar a rotina. Nos preocupávamos com os outros.

Não conhecia ninguém pelo nome. Isso era legal, uma vez que podia me dar ao luxo de criar apelidos. Tinha o senhor de terno riscado, de aproximadamente 80 anos, denominado Boina, e a mulher de calças sociais e cabelo escorrido, pintado de preto, à qual chamava de Chapinha. Na minha cabeça eu gosto de criar histórias, imaginar suas vidas, seus anseios, seus sonhos, enfim, viajar com eles até o destino final. Depois, voltava a pensar no meu trabalho (no restaurante Mil e Uma Receitas) e a reclamar do meu chefe, cada vez mais intransigente e mesquinho.

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Mas ontem, enquanto esperava o Pinheiros perdido nos sapatos do Lustrado, imaginando ser ele uma pessoa vaidosa e ambiciosa, me surgiu um rapaz, aparentemente 30 anos, barbudo, com o canto dos olhos e a testa pintados de sujeira e as roupas rasgadas. Elas estavam imundas. Seu cheiro fez as pessoas se afastarem com mãos tapando o nariz. Ansioso, me perguntou se eu tinha carro. Minha audição, notável e em perfeito estado, respondeu que não, afinal, estava no ponto de ônibus. Espantado com minha resposta, ele repetiu a pergunta: você tem casa? Coçando minha orelha com o mindinho, sorri envergonhado e disse que sim. Em seguida ele me estendeu a mão e se apresentou como Michel. Prazer, sou Antônio.

Tocar suas mãos foi como tocar uma lixa. Áspera e grossa, eu senti em meus dedos e palma a ambiguidade das nossas vidas. Olhando em meus olhos, percebi que os seus estavam bastante vermelhos, fruto da(s) noite(s) mal dormida(s). Sem pestanejar, também me perguntou sobre trabalho. Respondi ser gerente de um restaurante. Sorrindo e empolgado, perguntou se eu conhecia gente famosa. A conversa era continuada enquanto meus olhos se distraíam entre as falas do Michel e a espera do meu ônibus. Durante o papo, ele me pediu roupas de frio. Disse estar sofrendo demais com as temperaturas baixas. Somente aí me dei conta dos chinelos que ele vestia e das unhas, grandes, espessas e pretas. Desviando o olhar para a faixa de ônibus, avistei o Pinheiros chegar. Dei sinal, disse que estava atrasado, mas que à noite, por volta das 21 horas, voltaria ao ponto para entregar-lhe trapos antigos (alguns estavam guardados no armário do restaurante). Novamente ele me estendeu a mão, apertou a minha com firmeza e garantiu presença.

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Voltando para casa, às 20 horas e 30 minutos, desci próximo ao ponto de ônibus de todas as manhãs. Sentado, encolhido e com olhos de lince, observando todos os pedestres que passavam, ele me avistou. Acenou, gritou pelo meu nome e atravessou a rua correndo, sem olhar para os lados. “E aí, trouxe?” Eu fingi que não o conhecia. Eu, envergonhado por ter esquecido suas roupas, preferi brincar com sua sanidade. “Você está me confundindo, amigo”, respondi. “Sou Michel, falamos hoje de manhã. Você prometeu roupas”. Neguei. Neguei veementemente e segui caminho. No dia seguinte, pela manhã, encontrei apenas o Boina, a Chapa, o Lustrado e algumas outras pessoas. Nada do Michel. Desde então, comecei a andar de metrô. A agilidade da linha Amarela é magnífica.

 


Frederico Nercessian é autor do livro de poesias “Casa Vazia” e escreve também sobre filosofia, existencialismo, futebol e cotidiano em seu projeto solo: https://medium.com/@frednercessian

Imagens: @702i, @leandro​_f_v e @bruno_chagas

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São Paulo da garoa, São Paulo, que terra boa!

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