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ENTREVISTA: Isca de Polícia lança primeiro disco autoral no Sesc Pompeia

Banda criada por Itamar Assumpção faz dois shows neste fim de semana. Conversamos com a vocalista, Vange Milliet, para saber um pouco mais dessa nova fase

Formação atual da Isca de Polícia (Gal Oppido)

Isca – volume 1 é o primeiro disco autoral da banda Isca de Polícia após a partida do seu criador, Itamar Assumpção (1949-2003). O grupo toca neste sábado (15), às 21h e domingo (16) às 19h, no Sesc Pompeia, em São Paulo.

Com a colaboração de parceiros novos e antigos, a banda trabalhou no projeto durante quatro anos, o que rendeu músicas inéditas para dois discos e a segunda parte será lançada no segundo semestre deste ano.

Entre os nomes nesse time de peso estão Arrigo Barnabé (“Meus erros”), Alice Ruiz (“Eu é uma coisa”), Carlos Rennó (“Atração pelo diabo”), Ortinho (“As chuteiras do Itamar”) e Vange Milliet (“Corpo fechado”), entre outros.

O disco conta ainda com duas homenagens a Itamar – “Arisca” (Péricles Cavalcanti) e “Itamargou” (Tom Zé). Uma vez em estúdio, três coautores registraram pequenas colaborações: Arnaldo Antunes reforçou os vocais de “Xis” (ele também é parceiro de “Dentro fora”, a primeira a ganhar clipe), Zeca Baleiro fez uma intervenção na sua “É o que temos, é o melhor” e um trecho da gravação crua de Tom Zé, voz e violão, entra como música incidental em “Itamargou”.

Capa do novo disco Vol. 01, o primeiro de dois álbuns de inéditas. (Divulgação)

A Isca de Polícia está na ativa desde 1980 e já passou por diversas formações para atingir o nível de exigência e qualidade do seu criador, Itamar Assumpção.

Paulo Lepetit, que era o homem do baixo em gravações e shows importantes, atualmente é diretor musical da Isca e organizou a volta da banda: Jean Trad (guitarra) é o único que estava na primeira formação e no primeiro disco do Itamar; Suzana Salles (voz) e Luiz Chagas (guitarra), dos primórdios, circularam pela banda em diferentes fases; Vange Milliet (voz) entrou na pesca um tanto à frente e nunca mais saiu e Marco da Costa (bateria), em algum momento, assumiu as baquetas no lugar da lenda Gigante Brazil (1952-2008).

Após a morte de Itamar em 2003, o cantor foi redescoberto e a Isca de Polícia passou a ser convidada para diversas homenagens, entre elas o lançamento da “Caixa Preta“,  pelo Selo Sesc, um box especial de 12 CDs com edições remasterizadas de dez discos lançados entre 1980 e 2004, além de dois discos inéditos produzidos a partir de gravações de voz e violão deixadas pelo músico.

 


~ Entrevista com Vange Milliet ~


Vange Milliet (Reprodução)

Para saber um pouco mais dessa nova fase da banda, fizemos uma entrevista rápida com uma das vocalistas, Vange Milliet, que contou mais detalhes sobre o novo disco e também da relação da banda com o Sesc e com a cidade de São Paulo. Confira:

 

SP da Garoa: Como surgiu a ideia de reunir a banda e como foram esses longos 4 anos de montagem dos dois discos?

Vange Milliet: A banda Isca voltou a se reunir com esta formação a partir de 2013. Desde então nunca parou de fazer shows. Inicialmente, voltamos a nos apresentar em shows em homenagem ao Itamar, shows da Vanguarda Paulista, etc.

Depois passamos a ser chamados para outros eventos pelo trabalho e pela cara da banda. Fizemos Calourada da USP, Festival RecBeat, Virada Cultural, participamos do projeto “Caranguejando” em homenagem ao Mangue Beat. Durante esse período percebemos a demanda e a necessidade de fazermos um trabalho autoral. As músicas foram surgindo. Algumas passamos a tocar em shows. E fomos gravando. Sem pressa. Todos os integrantes da banda têm outros trabalhos paralelos e fizemos no tempo em que foi possível. Sem ansiedades.

 

SP da Garoa: O quanto vocês conseguiram absorver das ideias de Itamar no disco? Em algum momento houveram dúvidas sobre a realização? Podemos ver os discos como uma homenagem ou continuidade do trabalho dele?
Itamar e Vange (Reprodução)

Vange Milliet: A linguagem do Itamar com a Banda Isca foi, inicialmente, idealizada e construída por ele. Mas ao longo dos 25 anos em que tocamos juntos, a banda absorveu a idéia original e ajudou na evolução e lapidação dessa linguagem. Ajudamos na construção dessa sonoridade muito particular.

 A linguagem está lá no disco, pois todas as vezes em que essas pessoas se juntam para tocar o som sai assim. Naturalmente. Não precisamos ficar pensando em fazer com esta cara. Esta é a cara e a sonoridade da banda. Mas não é exatamente como há 15 anos quando tocávamos com o Itamar. Claro e ainda bem. A linguagem evolui, muda, absorve novas informações. Não é um trabalho saudosista.
Selfie com Tom Zé (Reprodução)

Claro que surgiram dúvidas sobre gravar ou não o disco. Pra começar, fazer qualquer trabalho artístico no Brasil, demanda muito. Também ficamos em dúvida devido à responsabilidade de fazer um disco sem o Itamar, as comparações, etc.

 Esses questionamentos fizeram parte do processo, mas depois percebemos que era natural fazermos um disco nosso. Que nossa linguagem é essa, que nosso som é esse, que não paramos no tempo. Temos legitimidade pra fazer o que fazemos.
O disco certamente é uma homenagem ao Itamar, claro. Mas não no sentido de fazer uma homenagem propositalmente. Ele homenageia, pois é um trabalho feito pela banda dele, que admira muito o trabalho dele e que assimilou e contribuiu  para construir uma linguagem. Dedicamos este disco a um grande amigo, com que tivemos o prazer de trabalhar e aprender

 

SP da Garoa: Vocês lançaram a “Caixa Preta” em 2010 com gravações inéditas de Itamar e acredito que tenham ganhado novos fãs depois disso. Agora com esses discos de inéditas de vocês acreditam que é a hora de renovar mais uma vez o público?

Vange Milliet:
O público da banda já tem se renovado. Todos esses shows que citei acima, são projetos em que o público era extremamente jovem. Conseguirmos atingir uma outra geração, que descobriu esse som há uns 5 anos. A platéia costuma ser bem eclética.

 

SP da Garoa: Essa parceria com o SESC deu muito certo. Vocês lançaram disco pelo selo deles e estão sempre tocando nos SESCs. Como é essa atmosfera desses shows e da relação de vocês com eles?

Vange Milliet:
O Sesc é um parceiro de longa data não só da Isca. Tem um papel fundamental na cultura em São Paulo. São espaços de expressão e fazer artístico. Temos uma relação de parceria com eles, até pela história da banda/sesc. Quando o Itamar surgiu, estava surgindo também o Sesc Pompéia, que foi a primeira unidade do Sesc nos moldes como conhecemos hoje. Foi uma transformação enorme na cidade. Muitos artistas começaram ali em programas como a Fábrica do Som, por exemplo. Um espaço plural, onde as várias artes interagem, coabitam o mesmo espaço.Lançar o disco no Sesc Pompéia tem essa importância e significado. Nos sentimos muito à vontade nesta unidade. O palco, a disposição da platéia, a fábrica, a estrutura à mostra. Tudo é cenário.

(Uma histórica apresentação de Itamar Assumpção com o Isca de Polícia na choperia do Sesc Pompeia para a gravação do extinto programa da TV Cultura, “A Fábrica do Som”, no ano de 1984)

 

SP da Garoa: Uma pergunta que tem tudo a ver com o portal e que não poderia faltar: o que você curte fazer e que lugares gosta de visitar em São Paulo quando estão de folga?

Vange Milliet:
Gosto muito da cidade. Do espaço público. E acho que esse sentimento de pertencimento vem aumentando na população em geral nos últimos anos.Gosto muito de ficar em casa também. Bairro tranquilo em que os vizinhos se conhecem. Uma delícia. A cidade, talvez até como uma reação à violência, tem se desnudado em pequenas delicadezas, como um vizinho que você nem conhece, deixar uma cartinha na sua caixa de correio dizendo que o abacateiro dele deu muitos frutos e que está deixando para quem quiser numa caixa em cima do muro. Isso é lindo!
Vange nos ensaios do bloco de carnaval de rua Ilú Obá de Min

Passei quatro meses ensaiando todos os fins de semana com o Ilú Obá de Min no centro de São Paulo. Foi uma experiência incrível. Você tem que aprender a se inserir em espaços que são públicos, que tem gente que mora ali. Estabelecer a convivência com respeito. Vencer a desconfiança de parte à parte. Respeitar o outro.

Gosto de andar na Paulista no domingo. Ir de metro, andar a pé no meio da rua. Fica um clima de cidade do interior, mas no meio de uma multidão.cAndar de bicicleta, ir no parque Villa Lobos, passear na mata do parque aqui perto de casa. Não tenho a menor paciência para Shopping. Gosto de ver a luz do dia. Se está chovendo, se está frio.

A ocupação do espaço público faz você se sentir dono da cidade, querer cuidar. Você cuida pois usufrui do que está lá. É a sua casa também. Se todos se valessem mais desses espaços, a cidade seria mais limpa, mais humana, menos violenta.

 


Com esse lançamento a banda entra agora em um novo ciclo autoral, mas não deixa os genes de Itamar Assumpção para trás, o que com certeza deixa o seu criador mais vivo do que nunca.

Serviço Isca de Polícia lança “Isca – volume 1”:

QUANDO: Dias 15 e 16 de abril, sábado, às 21h, e domingo, às 19h
ONDE: Sesc Pompeia – Rua Clélia, 93, Pompeia, São Paulo
QUANTO: R$ 30 (inteira), R$ 15 (meia entrada para maiores de 60 anos, estudantes e professores da rede pública) e R$ 9 (comerciários e funcionários da rede Sesc e seus dependentes)
Venda online a partir de 4 de abril, terça-feira, às 17h30. Venda presencial nas unidades do Sesc SP a partir de 5 de abril, quarta-feira, às 17h30. O Sesc Pompeia não possui estacionamento e a censura é de 12 anos.

Repertório:

 

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Guilherme Olhier é colaborador de assuntos ligados à música, arte, cultura e gastronomia no São Paulo da Garoa. É apaixonado por fotografia e registra os seus cliques no @olhier88. Além disso, tem um canal no Youtube chamado Porres e Poesias, onde bate muito papo etílico sobre qualquer coisa que der na telha.

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