SP da cultura

ENTREVISTA: Otto e sua “Ottomatopeia”

O músico acaba de lançar Ottomatopeia e conversou com o SP da garoa + Palco Alternativo sobre o novo álbum, política, rock e “ser paulistano”

Capa do disco Ottomatopeia (2017)

Há cinco anos sem lançar nada, o músico pernambucano Otto (49 anos) retorna com Ottomatopeia, álbum de inéditas produzido por Pupillo (Nação Zumbi) e recheado de participações especiais de Roberta Miranda, Céu, Manoel Cordeiro, Felipe Cordeiro, Andreas Kisser e Zé Renato.

Ao mesmo tempo em que pensava o seu sexto álbum de estúdio, Otto observava a situação política do país e disse que este momento turbulento que o Brasil e o mundo atravessam também foi inspiração para o disco.

Batemos um papo com o cantor, aqui em SP onde ele ensaia o novo show, e nos contou mais detalhes da produção do álbum, e também, de política, de rock’n’roll, do que anda escutando e de sua experiência de “ser paulistano” (pois já reside na terra da garoa há um tempo). Confira!

Otto e sua esposa Kenza Saïd que assina a direção de arte do álbum (R. Gushiken / SP da garoa)

A ENTREVISTA EXCLUSIVA


SP da garoa: Você está na “fossa”?

Otto: Fazem cinco anos que não lançava nada e eu pensei, o que vou falar nesse momento, com a Dilma caindo, a clareza da corrupção, esperei esse tempo para digerir o que seria. Neste disco, eu falo de amor, de desejo, mas também é um grito nesse sentido do que que está acontecendo no país e no mundo.

A capa do disco teve direção de arte da Kenza (esposa e fotógrafa francesa radicada em SP), foi inspirada num quadro do romantismo alemão, de Caspar Friedrich, que se chama “O Viajante” sobre o mar de névoas, em que aparece um homem olhando por cima das nuvens. Eu com 49 anos, já depurei muita coisa e hoje posso falar de um lugar mais alto, posso ver as coisas de cima.

Eu já fui muito de fossa, mas hoje eu falo de amor. Estou longe do conservadorismo, do fascismo. Precisamos falar de amor. As coisas estão muito extremas.

SP da garoa: Por que Ottomatopeia?

Otto: Foi um amigo meu, Petra, ele é sérvio, ele está em NY, e ele ficava me falando: “Onomatopeia, Ottomatopeia”. Quando eu voltei pra cá, eu sonhei com Petra falando isso e virou o nome do disco. Eu sempre escolho o nome antes do álbum ficar pronto. O próximo disco já tem nome: Vernáculo.

Otto nos conta mais sobre Ottomatopeia (R. Gushiken / SP da garoa)

SP da garoa: E nesse novo disco, podemos escutar um Otto mais sincero, mais cru nas letras?

Otto: Eu vivo para escrever, eu vou viver do que eu escrevo, do que eu canto. Eu escrevo um poema por dia, um pensamento por dia na internet, então isso me enriqueceu no dia a dia.

Eu estou muito confiante das coisas que eu penso, das coisas que eu amadureci, principalmente na minha escolha política. Estou vendo um desbunde fascista e não é possível que vou concordar com isso.

Na música, a mesma coisa, tanto eu, quanto Pupillo (produtor  musical de “Ottomatopeia”), quanto as pessoas que fizeram o disco, uma geração de músicos que estão amadurecendo e uma geração de músicos que estão na melhor época da vida.
Eu me considero extra-pop, não estou no mercado, não toco em rádio, mas eu sei que eu toco na internet, eu toco no boca a boca, no tête à tête.

SP da garoa: Fala um pouco sobre as parcerias, tem Roberta Miranda, Andreas Kisser (Sepultura)…

Otto: (A música) Carinhosa (parceria com o cantor e compositor capixaba, Zé Renato) foi uma elevação na minha composição, é mais adulta, tem uma coisa que eu não tinha em outros discos. Zé Renato, que é de uma geração mais velha, me deu essa melodia para eu cantar em cima. Ele foi um mestre que me colocou num nível de canção que eu não tinha em outros discos.

Roberta Miranda,  eu a conheci em Brasília, eu não a conhecia pessoalmente, embora sempre fui seu fã. Eu participei da trilha sonora do filme Quase Samba (2012) e eu perguntei para ela se eu não poderia gravar “Meu Dengo” para o filme. No dia que ela veio gravar comigo, a Céu, que é mulher do Pupillo, estava.

Então, tive Céu e Roberta Miranda nesta música (“Meu Dengo”), bela, que eu fiz um surf music. Foi numa hora maravilhosa, pois ela está numa hora maravilhosa, quem acompanha Roberta nas redes sociais que sabe disso.

E não sei se vocês sabem, mas a Roberta foi a primeira mulher no Brasil, talvez na América Latina, que vendeu mais de um milhão de discos.


(A faixa “Meu Dengo” que faz parte da trilha sonora do filme Quase Samba, de 2012, entrou para Ottomatopeia – Reprodução YT)

Também teve Seu Manoel Cordeiro, ele é um mestre lá do norte, que fez “Teorema”, música que foi pra outro filme, de Lino Ferreira, chamado Sangue Azul (2015).

Andreas Kisser (que toca na música “Orunmilá“) foi o seguinte: tem um escritor e publicitário brasileiro, o PJ Pereira, ele escreveu dois livros, é diretor de cinema, e o sonho dele é fazer um filme sobre orixás nos moldes de O Senhor dos Anéis. Ele me chamou para fazer a música do teaser desse filme (que conta com Pupillo na bateria e tem a participação da guitarra do Andreas Kisser).

Então (essa música “Orunmilá”) tem Andreas Kisser, tem os batuques da Nação (Zumbi), tem esse frescor dos anos 90. É impressionante o talento do cara para levantar a guitarra, é Sepultura, né?


(A faixa “Orunmilá” tem participação do guitarrista do Sepultura, Andreas Kisser – Reprodução YT)

SP da garoa: Em relação ao disco anterior, como foi o processo de gravação de Ottomatopeia?

Otto: O outro não pesou tanto quanto este pesou em matéria de disciplina minha, acho que fui mais disciplinado. A diferença maior deste para o outro, além da maturidade, é que esse é muito mais coeso do que qualquer um. Talvez, agora, eu tenha chegado no alto das nuvens e eu pude pensar mais o disco. Nos outros, eu queria largar, eu não ia para estúdio, a capa eu deixava para qualquer um, este a capa veio da minha casa. Ele é muito mais independente, esperei muito mais, tive mais calma, para surfar nesses momentos de criação, de acreditar no que eu estava fazendo. Não estava preocupado com quem ia pagar o disco. Um dos estúdios foi a casa de Pupillo (em São Paulo. Os outros foram o Red Bull Station e o estúdio do Kassin, no Rio de Janeiro). Então, tive tempo e calma para trabalhar nele.

Eu sempre fui muito empolgado, aquela coisa sexo, drogas e rock’n’roll. Não dava em porra nenhuma, eu não saia do lugar. Então, eu falei: vou fazer o seguinte, para tudo e começa um novo caminho, o mundo já está mudando. Vou ser um cara digital, vou escrever todo dia, vou filmar algo meu bacana.

Minha atenção está muito mais em saber que a internet é o que faz com que eu vá em qualquer lugar do Brasil e do mundo e vai ter gente lá que me acompanha. Depois da internet, você não precisa mais do mainstream, do hype, do jabá (eu nunca precisei), para se lançar. Meu instagram tem 70 mil pessoas, que não é nada de mais, mas são 70 mil pessoas que estão atentas ali pra mim.

 


O ROCK NÃO MORREU

Otto: (Tenho escutado ultimamente) Tulipa, Céu, Vanguart, Johnny Hooker, Jonata Doll. Gosto desse pessoal que está mandando o gênero pra puta que pariu. Gosto dessa coisa meio setentona. Gosto da busca pela música brasileira antiga.

O que estagnou não foi o rock’n’roll, foi o mainstream desse rock. Porque se você for ver na molecada que tem paralela a esse mainstream o rock está vivo.

Você junta rock com os batuques, e é rock. O rock não é mais um estilo (próprio) de algum lugar. E você vê as manchetes falando o rock acabou. O rock não acabou. Ele mudou.

Otto descontraído e contando tudo sobre o novo álbum e o seu momento de maturidade artística (R. Gushiken / SP da garoa)

OTTO E A TERRA DA GAROA

Otto no Mundo Livre S/A, 1995 (Reprodução)

Otto: A gente vinha pra São Paulo (nos anos 90) com o Mundo Livre S/A (banda em que Otto fazia parte), a gente tocava rock, punk. Neguinho aqui tinha um pensamento assim, ou era americano ou não era rock. Tinha que ser em inglês. Hoje, o paulista está muito mais aberto do que era. Mais diverso.

E tô amando morar em São Paulo, onde vivo há um tempo e divido o lar com a minha esposa (Kenza Saïd). Já me sinto um paulistano nato, e meio que sem querer, essa minha aparência (descendência holandesa e de barba comprida) me faz parecer parte da comunidade judaica ortodoxa da região de Higienópolis/Jardins (comunidade predominante nesses bairros paulistanos).


Escute o novo álbum de Otto na íntegra!



Momento “tietando o artista”, da esquerda para direita, Natasha Ramos, Otto e Rafael Gushiken

*Colaborou para a matéria: Rafael Gushiken

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Natasha Ramos é colaboradora da editoria musical e assuntos relacionados no São Paulo da garoa. Suas paixões são Johnny Thunders, Hunter Thompson, "músicadaboa" e seu violão. Ela também é editora e idealizadora do portal Palco Alternativo.

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